No dia 2 de maio de 1801, Marie-Anne Le Normand foi convidada a ir até la Malmaison, a residência de Joséphine de Beauharnais numa aldeia a oeste de Paris. Marie-Josèphe-Rose Tascher de La Pagerie, a primeira esposa de Napoleão Bonaparte, nasceu na Ilha da Marinica em 1763. Ela se casou com Alexandre de Beauharais em 1779, então, depois da morte de Beharnais em 1794, casou com Bonaparte em 1796. Como o convite foi anônimo, Mlle Lenormand não tinha a menor ideia de quem encontraria. Foi pela sua arte da quiromancia que ela identificou Joséphine – a quem não, aparentemente, não reconhecera apesar dos seus primeiros clontatos durante o Terror. Não somente estava ela diante da esposa do primeiro cônsul, como o próprio Napoleão Bonaparte estava lá. O único problema é que nossa única fonte disso é o próprio livro de Mlle Le Normand, Les Oracle sibyllins... de 1817.
 

É incerto que ela tenha mesmo se tornado parte das relações de Joséphine, uma vez que Alfred Marquiset cita um cartão postal de 28 de novembro de 1804 na qual Mlle Le Normand endereça à Imperatriz como uma ‘sybille [sic para sybille]française’ ‘implorando humildemente à Sua Majestade Imperial para em sua bondade conceder-lhe  um grande favor’: o ‘livro do destino’ disse-lhe ‘que receberia um pequeno trabalho de sua digníssima pessoa.’

 

Mais uma vez, é difícil separar o que é verdade e o que pura invenção. Mademoiselle Ducrest, que visitava Joséphine de Beaharnais frequentemente, concorda que ela tinha inclinações para superstições e adivinhação. Alfred Marquiset também se refere à Duquesa d’Abramtès a à ‘Mademoiselle Avrillon’, ambas dando evidência de que Josephine teria consultado Mlle Le Normand, diretamente ou através de um mensageiro.Todavia, historiadores provaram que as duas últimas foram forjadas como muitas outras memórias no período Napoleônico. O que é óbvio é que Marie-Anne Le Normand se aproveitou bastante da situação. Não só contou sobre seus alegados encontros com Joséphine com riqueza de detalhes em muitos de seus livros como ainda publicou Mémoires Historiques et secrets de l’imperatrice Joséphine, Marie-Rose Tascher de La Pagerie, em duas edições, 1820 e 1827, orgulhando-se de ter sido confidente e conselheira de Joséphine.

Relatos mais sérios evidenciam grandes contrastes. Um documento policial relata: ‘há multidões na Lenormand, a famosa leitora de cartas da rue de Tournon’, e acrescenta que Metternich, o home o estadista austríaco, então embaixador em Paris, visitou-a em 1808. Jacques-Barthélémy Salgues, no seu Des erreurs et des préjugés répandus dans la société (Dos erros e preconceitos na sociedade) foi forçado a confessar que ‘longas filas de carruagens’ esperavam em frente  em frente à ‘famosa senhorita L.R.’, significando Le Normand. Então, Mlle Le Normand estava em voga e rica. Parece que ela comprou uma casa de campo em Migneax (perto de Poissy, Yvelines), por volta de 1802 e, provavelmente, mais tarde, um apartamento na rue de la Santé, em Paris. Talleyrand, Mme de Staël e Talma podem a ter consultado.


Mas há um lado negro. No seu L’hermite de la chausée d’Antin, Victor-Étienne Jouy conta: “Há uma sibila moderna em Paris cuja reputação e sustento se baseiam somente na credulidade infantil de das mulheres da melhor sociedade...” é no centro de Paris, na rue de Tournon, no enigmático letreiro doBureau de Correspondence générale’. Os arquivos policiais revelam que ela era constantemente detida e presa. Em dezembro de 1803 ela foi manda para a prisão no ‘Madelonnetes’ por sua ‘sala de estar ser um antro de conspiradores’. Os relatos policiais multiplicaram. Em setembro de 1804 conta que ‘Mlle Le Normand, que reside na rue de Tournon engana tolos todos os dias.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A cartomante Lenomand recebeu várias ordens de prisão

 

O grande assunto de 1809 foi o divórcio de Napoleão de Joséphine. Mlle Le Normand foi detina em 15 de dezembro como consta nos realtos policiais. “A mulher Normand [sic], que ganha a vida lendo a sorte, foi presa. Quase todo o tribunal costumava consulta-la sobre atualidades. Ela fez horóscopos de para as pessoas mais importantes e ganhava mais de 20.000 francos por ano com o ofício.’ Mas temos outra testemunha: a própria Marie-Anne Le Normand. Ela usou um livro de 602 páginas (Les souvenirs prophétiques d’une sibylle...), publicado em 1814, para nos dizer porque e como ela foi para cadeia por alguns dias em 1809. Ela foi interrogada sobre seus clientes, técnicas e previsões e, então, liberada. A verdadeira razão da sua detenção, ela conta, foi por ter previsto o divórcio de Napoleão de Joséphine e tentado impedi-lo. Desde então, a polícia pareceu deixá-la em paz.

 

Em 1812-13, Mlle Le Normand tinha uma livraria na rue du Petit-Lion-Saint-Sulpice (ou Petit-Bourbon-Saint-Sulpice, a rua próxima rua depois da Tournon), que deve ter comprado de um antigo livreiro, Fréchet, em cerca de 1810. Foi nesse endereço que ela publicou seus primeiros livros.
 

Le souvenirs prophétiques foi publicado ‘à Paris, chez l’autir, rue de Tournon, nº 5, et à son magasin de librairie, rue du Petit-Bourbon-St-Sulpice, nº1 (‘pode ser adquirido com o autor, ... e em sua livraria...). O livro foi editado por Lenormant, um editor que não tem qualquer relação com Marie-Anne. A gravura mostra a chegada dos policiais na sala de consultas de Mlle Le Normand. Um prefácio (‘Petit avant-tout’) apresenta o livro que é organizado como uma história sequencial: primeiro, ‘Ma vision’, então ‘Le réveil’ (‘o despertar’), ‘Le depart’ (‘A partida’), ‘Premier interrogatoire’ (‘Primeiro interrogatório’), ‘Deuxième interrogatoire’, seguido pelos onze dias de sua prisão, algumas ‘reflexões’, ‘uma palavra no ouvido’, o ‘billet doux’, uma viagem ao inferno, uma ‘Description de l’île d’Elbe’, e, por último, mas não menos importante, algumas 282 páginas de notas!


Como podem imaginar, não precisamos resumir esse livro sufocante cujo propósito era mostrar o quão brilhante ela se comportou e o quão ridícula foi a polícia e, é claro,  promover sua arte e previsões. Nesse fluxo de situações falsas e digressões históricas, ainda assim conseguimos pegar algumas das técnicas divinatórias da sibila. Em ‘Le rèveil’ (pp.8-9) ela litas alguns de seus instrumentos, os quais explica em generosas notas: O espelho flamejante de Luca Gaurico, as trinta e três varetas gregas, sua ‘cabale de 99 de Zoroastre’, sem mencionar seus grimórios, sua varinha divinatória, seu precioso talismã... Mas a primeira pergunta dos policiais é sobre leitura de cartas: ‘Vou faites le cartes (26)?’ (você lê as cartas?). Na sua resposta ela lhe oferece uma leitura. Mas a promissora nota 26 é decepcionante. Estranhamente, Mlle Le Normand insere um conto popular conhecido como ‘a história de Grenadier Richard’, onde um soldado assiste uma missa com um baralho de cartas na mão e, quando repreendido, explica que cada carta tem um significado bíblico. No segundo interrogatório, ela é, mais uma vez questionada sobre as cartas. Marie-Anne Le Normand econtra uma oportunidade de nos contar a origem das cartas de jogar na sua nota número 31, referindo-se ao abbé de Longuerue e a Jacquemin Gringonneur. Supreendentemente, não uma nota seque, sobre o tarô em toda a obra!
 

O livro foi um evento único. Reviews apareceram no Le Nain Jaune de 20 de março de 1815 e no Le Journal des Débats, onde Hofman, seu editor, publicou uma série de artigos em agosto e começo de setembro de 1815. Marie-Anne Le Normand respondeu no Le Courrier de 20 de setembro.

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