O único herdeiro dos bens de Mlle Le Normand foi o seu sobrinho de 37 anos, Michel-Alexandre Hugo, um segundo tenente da infataria, filho de sua irmã mais nova, Marthe-Sophie. Sua fortuna foi estimada em 500.000 francos, mas, na verdade, eram somente 120.000 dos quais perto de 80.000 foram deixados como heranças pessoais e mais em várias reivindicações concedidas pelo tribunal. Na edição de 16 de julho, o jornal parisiense Le Charivaripublicou um pequeno artigo sobre a sucessão de Mlle Le Normand, concluindo que ela não tinha nenhum sucessor(a), porém um grande número de senhoras leitoras da sorte dividiriam a sucessão entre si. O artigo mostra espanto com o número de profissionais, então, atuando em Paris, que estabelecia em cerca de 50, que divulgavam seus serviços nos jornais e quem presumia serem todas mulheres. Ele escolhe três para descrever separadamente. A primeira, Mme Clément, descrevia os anuncios como ‘uma encantadora adivinha cuja jovem reputação se equiparava à de Mlle Le Normand.’

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mlle. Lenormand não preparou sucessoras

 

Que ela alegava ter previsto o futuro de Marie-Louise, segunda Imperatriz de Napoleão e de sua própria queda já sabemos; se assim fosse, ela não poderia ser tão jovem. Ela se especializou em previsões, por meio de cartas, de desastres grandes e pequenos, vestia manto preto e capuz vermelho e viveu, segundo o artigo, no andar térreo de um sob um notário. Infelizmente, não é dado o seu endereço, mas em 25 de julho, um mês depois da morte de Mlle Le Normand, Mme Clément reivindicou a sucessão instalando-se no mesmo apartamento térreo na rue de Tournon,5, onde a famosa sibila fez suas consultas por muitos anos. Em seu livro, publicado alguns anos mais tarde, Mlle Lelièvre nos conta como o sobrinho de Mlle Le Normand, encontrando entre suas coisas, uma carta escrita a ela por Mlle Lelièvre, com bons comentários acerca do destinatário, escreveu para lhe oferecer uso do apartamento e seu recheio; ele ofereceu, também, convencer os clientes de suas tia para serem transferidos para ela, dizendo que seria a única capaz de ser sua sucessora. Mlle Lelièvre recusou, sabendo de que precisava de mais estudos e consciente de que nem o apartamento de Mlle Le Normand, nem a sua mobilha a concederiam o talento requisitado: de olho em Mme Clément, ela declara que consideraria isso puro charlatanismo. Evidentemente, o tenente Alexandre Hugo, então, descobriu  Mme Clément e fez-lhe a mesma oferta, que foi prontamente aceita.

 

As duas outras senhoras descritas pelo Charivari foram Mme Albin r Mme Melchior, ambas tendo a borra de café como seu oráculo de preferencia. Mme Albin era especializada em consultas para previsão de casamentos, heranças e outros eventos felizes. Mlle Melchior era idosa e dedicava as manhãs para as tarefas domésticas, deixando fim da tarde para fazer encoarajntes previsões por 20 sous a consultation, para sua pobre clientèle.

Antes de julho de 1843 acabar, a editora Lange-Lévy publicou La sibylle du XIXe siècle, de Flamel, já mencionado. Num prefácio, o editor, escrevendo sob o nome de A. Gallus, esclareceu que, após quarenta e oito horas da morte da sibila, ele recebeu um pequeno caixão de um remente anônimo. A carta que o acompanhava dizia que, alguns meses antes, Mlle Le Normand, de quem ele era um amigo próximo, confiou-lhe o caixão, instruindo-lhe a publicar as profecias manuscritas contida nele após sua morte. Gallus, revelando a crença de que o remetente era um dos executores de Mlle Le Normand, explica que publicaria essas grandes profecias de forma célere. Ele não pondera porque um executor procederia de forma tão clandestina, ou revela os passos que deu para verificar a autenticidade do manuscrito, mesmo pela comparação de caligrafia.  Ao invés disso, ele convidou Hortensius Flamel, ‘o célebre autor de Le Livre rouge’, para escrever um comentário.

 

A publicação, como um todo, traz os sinais de uma farsa. Flamel pode, possivelmente, ter feito, ele mesmo, as profecias; mais provavelmente ele pode ter sido colocado com um cúmplice. As profecias, duas por página, variam em precisão, uma vez que são muito vagas ou muito obscuras para se provarem erradas. Que o reino se tornaria  um Império, pela segunda vez,  se provou correto em poucos anos; que as pessoas viajariam pelo ar demorou mais ainda para se verificar. Que a Suiça seria invadida por todos os lados e deixaria de existir, em pouco tempo, foi um tiro fora do alvo; igualmente que a Cruz substituiria o Corão em Constantinopla.

 

O breve comentário de Flamel é superficial e composto, em grande parte, por generalidades. Certas pessoas possuem o poder de prever o futuro, e Mlle Le Normand o tinha em alto nível; suas previsões eram  invariavelmente precisas. Qual comentário mais claro poderia ser feito de profecias já, totalmente, explícitas? Só o último parágrafo do comentário revela um motivo a mais para a publicação. “Quando ouvimos falar da morte de Mlle Lenormand, nos perguntamos se uma nova estrela iria brilhar nos céus proféticos para substituir a que acabara de perecer. Olhamos e um raio luminoso nos alcançou. Como Arquimedes, o que introduz as ciências ocultas, eu gritei, “Eureca”. Mme Clément é a nova perita que erguerá, para nós, os véus que cobrem o futuro.’ É de se duvidar que Famel tivesse o mínimo interesse no assunto, mas o editor estava, certamente, interessado em a reforçar a alegação de Mme Clément à sucessão. O comentário de Flamel é seguido por uma biografia de Mlle Le Noramand, anônima, que verificamos ter sido baseada na carta de Alboise de Pujol para o Le Tam-Tam, publicada um mês antes. A partir dela, ficamos sabendo que ela começava suas consultas, perguntando para o consulente detalhes pessoais, incluindo sua data de nascimento, as iniciais de seu nome de batismo e local de nascimento, sua cor, animal e flor favoritos e o animal que mais detestava. Também tomamos ciências da variedade técnicas divinatórias das quais se valia. No meio da biografia é colocada uma breve menção à Mme Clément: ‘Não esqueçamos de dizer que já nesse tempo, uma sibila igualmente famosa, uma estrela dos céus proféticos, proferia seus oráculos e leituras do futuro. Na Alemanha, Mme Clément previu o futura grandeza da Imperatriz Marie-Louise.’ A repetição da frase sobre a nova estrela, sugere que Flamel teve alguma participação na composição da biografia, que termina com mais um elogio à Mme Clément: “A última sibila não está morta. Aqui está outra que surge, não menos ilustre, não menos formidável: é a pitonisa de Delfos, é Mme Clément. Seu tripé está erguido, seu livro do destino, aberto; suas cartas, prontas. À ela pertence o reino do futuro.”

 

‘Nunca vimos Mme Clément, continua o autor, ‘mas ouvimos muito a seu respeito; e o que ouvimos foi tão extraordinário que seria preciso um volume inteiro para contar... É na caverna da sibila falecida, na mesma casa onde Mlle Lenormand viveu que a profetisa do momento faz suas maravilhosas previsões.’ ‘O passado é de Mlle Lenormand’, conclui seu biógrafo, ‘o futuro pertence à essa estrela profética, Mme Clément. Assim com as sibilas como com os reis: a sibila morreu, vida longa à sibila.’

 

Os louvores extravagantes de Mme Clément podem sugerir algum grau de conluio entre o tenente Hugo e os autores dessa ilegítima obra pós-morte, umas vez que o sucesso de Mme Clément seria importante para Hugo como beneficiário do aluguel. A suspeita seria equivocada; e a motivação para a vasta promoção de Mme Clément permanece obscura.

 

Pouco depois, no mesmo ano, foi publicada a biografia de Mlle Le Normand por Francis Girault plagiada de várias fontes. Girault publicou como apêndice algumas ligações com Alexandre Hugo. Primeiro, uma carta datada de 22 de julho de Hugo para os editores, Breteau e Pichery, referindo-se ao livro de Flamel, denunciando as profecias com os mais fortes termos como falaciosas – um julgamento com o qual Du Bois, posteriormente, concordou -  e acusando Breteau e Pichery de publica-las. Os editores acusados, evidentemente, não viram razão para resposta; mas Girault respondeu, entregando o manuscrito de sua biografia a Hugo, na rue de Tournon,5, negando qualquer responsabilidade pelo livro de Flamel da sua parte ou de Messrs Breatrau e Pichery. Em sua resposta de 29 de julho, Hugo se desculpou por sua falsa acusação, e aceitou a obra de Girault como a biografia oficial de sua tia.

 

A esperança de Mme Clément em se tornar tão famosa quanto Mlle Le Normand foi frustrada; e se Lange-Lévy esperava que ela publicasse algum livro que escrevera com eles, frustraram-se, por ela tê-los publicado por sua conta.’ Em 1844 ela produziu um livreto de 64 páginas, Le Corbeau sanglant, ou l’Avenir dévoilé (O Corvo Sangrento, ou o Futuro Revelado). O título se refere, explica Mme Clément, à técnica divinatória romana de examinar as entranhas de um corvo. A capa traz o endereço da autora, como própria editora, e como ‘a casa ocupada por Mlle Le Normand, rue de Tournon, 5’. O frontispício é uma gravura litografada de Mme Clément, uma bela senhora usando um cocar de aparência Asteca, do qual seu cabelo cai em cachos. O método divinatório que explica segue diretamente a tradição de Etteilla, as cartas que usava sendo as do jeu égyptien ou de Thot (o tarô de Etteilla numerado de 1 ao Louco, com 78 cartas). Ela afirma ser clara ao explicar seu sistema, mas não consegue. A tiragem é simples: as treze primeiras cartas são viradas e lidas, então dezenove e, finalmente, vinte e uma, as cartas lidas, são, a cada momento, devolvidas ao maço que é re-embaralhado antes de ser tirado o próximo conjunto de cartas. É dada uma lista se significados das 78 cartas, baseada em Etteilla, porém, sem qualquer referência à sua posição invertida. Embora o instrumento seja o baralho de Etteilla, o coração de Mme Clément está na astrologia. As cartas numeradas do naipe de ouros são identificadas com símbolos ‘cabalísticos’ dos planetas, a cabeça e cauda do dragão e a parte da fortuna, aos quais são associadas 12 previsões de acordo com as 12 ‘casas’ (signos) zodiacais em que estiverem. Mme Clément, volta, na segunda parte do livro, ao que acredita ser mais interessantes para o público, um horóscopo para homens e mulheres de acordo com o mês que nasceram, seguido de uma descrição de vários temperamentos (fleumático, sanguíneo, etc) e de como ler a personalidade pelas características físicas.

 

Certamente não há, aqui, uma grande sibila: somente uma praticante inexperiente.

Em 1852, Mme Clément publicou outro livreto, Le Flambeau de l’avenir (A tocha do futuro), do mesmo tamanho, ainda da rue de Tournon,5, denominado ‘a antiga livraria de Mlle Lenormand’, abaixo do nome da autora está inscrito algo meio patético ‘a sucessora de Mlle Lenormand’. A mesma gravura de Mme Clément meio borrada, forma o frontispício. É interessante ressaltar que Mme Clément usa, repetidamente, o termo de Etteilla ‘cartonomancia’, embora o livro seja supostamente sobre a técnica de ‘cartomancia’, não há virtualmente, nada nele sobre o uso de cartas. A falta de importância. Tal inconsequência só leva à suspeita de que a pobre senhora não esta em seu juízo perfeito. Sob o ‘sistema’ principal ela diz que deve-se, primeiro, perguntar ao consulente para que se conheça detalhes pessoais do mesmo como o que gosta e o que não gosta (a prática atribuída à Mlle Le Normand). Ela passa, imediatamente para o segundo ‘sistema’, que não é sistema nenhum além de um discurso confuso sobre a astrologia e as virtides cardinais, aludindo às obras do ‘grande Thot’. Ela termina com sitações históricas de previsões acertadas.

 

Em 1847 havia um livro interessante publicado, fora do meio literário cartomântico. Justifications des sciences divinatoires (Justificativas das ciências divinatórias) por Mlle A. Lelièvre.. O catálotogo da Biblioèque Nacionale apresenta o nome do autor como um pseudônimo de Marc-François Guillois, mas essa atribuição é, praticamente, um absurdo. Pseudônimos ou supostos pseudônimos são, para bibliotecários como atribuições à obras de arte a artitas individuais são para historiadores da arte; eles os investigam religiosamente, mas, quando não há evidências sólidas, eles irão se agarrar na mais inconsistente base para para uma identificação. Guillois foi o autor de textos políticos publicados em 1795, 1797, 1801, 1816 e 1831; não há motivos para que se suspeite dele como autor de obras sobre artes divinatórias em 1847. Além disso, não é apenas uma questão de pseudônimo. O livro de Mlle Lièvre é dedicado à condessa Marie d’Adhémard com expressões da mais profunda gratidão por sua ajuda e amizade, contendo um amplo conteúdo autobiográfico, dando nomes a várias pessoas como Monsieur Saint-Prix, que, em 1830 tomou-a como aluna Théâtre-Fraçais e tratou-a como uma filha (p.49). O livro seria completamente inútil se tudo isso fosse fictício, mais, o edereço da autora está impresso na capa, de forma que seria fácil identificar qualquer farsa. Não há motivo para não aceitar Mlle Lelièvre, como um escritor posteriormente o fez, como uma sibila genuína escrevendo sob seu próprio nome.

 

A maior preocupação do livro é recontar como Mlle Lelièvre veio, em 1840, a adotar a profissão de leitora da sorte. Embora Mme Clément em momento algum seja mencionada, denegrir suas alegações de ser a sucessora de Mlle Le Normand é, claramente, algo secundário. A autora conta (p.66) como uma amiga sua pede à Mlle Le Normand para tomar Mlle Lelièvre como sua pupila, mas Mlle Le Normand responde dizendo que não tem alunos; entretanto, ela permite que Mlle Lelièvre tire as cartas em sua presença. Numa nota de rodapé Mlle Lelièvre diz, ‘Tenho diante de mim uma carta tirada por uma certa senhora’. – certamente, Mme Clément – ‘afirmando ser ela a única discípula de Mlle Le Normand. Ela é, meramente, a única  a ter reivindicado o título com o intuito de enganar as pessoas; essa senhora não é mais discípula de Le Normand que eu e, talvez menos.’ Já foi dito como, após a morte de Mlle Lenormand, seu sobrinho ofereceu o apartamento de sua tia à Mlle Lelièvre  e ela rejeitou a proposta. O livro foi reeditado no ano seguinte com um novo título Proohéties de la nouvelle sibylle. Não é apropriado, uma vez que o livro não contém profecias, mas é obviamente feito para conter a alegação implícita de ser a verdadeira sucessora de Mlle Le Normand; ela descreve, ingenuamente, como sonhou que Mlle Le Normand lhe disse ‘ Você me substituirá e seu nome fará o meu ser esquecido.’

 

Mlle Lelièvre praticava quiromancia e cartomancia, a última tanto com baralho comum como com os tarôs egípcios de Etteilla. Seu livro não contém nenhuma instrução para essas artes, depois de uma longa seção autobriográfica, ele consiste em uma série de casos falando sobre previsões bem sucedidas efetuadas por várias técnicas divinatórias. A seção de cartomancia repete as fantasias contidas no livro de Frédéric de la Granfe, Le grand livre du destin que foi publicado dois anos antes sobre a história da arte. Marie Ambruget e Fiasson aparecem na obra, como na obra de la Grange; sua história sobre o Duque de Orleans, Mariette e Brivazac é atribuída à ‘memórias secretas’. Mlle Lenormand, estamos seguros disso, tinha o livro de Thot sempre sob seus olhos; nesse caso, Mlle Lelièvre a imita.

 

De acordo com Éloïse Mozzani, Mlle Lelièvre morreu em 1849. É muito difícil dizer que tanto ela quanto Mme Clément provaram serem a real sucessora de Mlle Le Normand. Outas cartomantes fizeram similares alegações com fundamentos menos consistentes. Mme Lacombe, que morreu em 1846, trabalhava no número 1 da rue Boucher, estabeleceu-se como ocupando o lugar de Mlle Le Normand, enquanto em 1848, Mme Morel divulgava-se numa publicidade impressa como ‘amiga íntima e discípula de Mlle Le Normand’ o que nunca foi. Entretanto, não nos surpreende que quando, em 1854, Mme Eugénie Bonnejoy Pérignon revelou a escolha de Mlle Le Normand de uma sucessora, concedida após sua morte, que deveria ser provado que não seria nenhuma das senhoras que se afirmavam como tal, mas um homem. Ele era Edmond; porém sua história está reservada para o próximo capítulo.

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